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escritos, textos, cronicas, historias, novelas, personagens, frases, teatros, opinoes, ideias, certezas, duvidas... coluna da lucia no UOL: MODA CRONICA - toda semana no site moda almanaquevisite meu blog: frankamente...e minha pagina no releituras: lucia no releituras Mudei o canal da TV e dei um pulo para trás. Não era possível. - Chico! Nana! Juca! Genteeee! Corre aqui, rápido! Eu comecei a dar pulos em frente a TV. Sério, aquele era meu seriado favorito, o “Perdidos no Espaço”. Eu adorava aquilo quando era criança, e fazia anos que eu não assistia. Agora existe até o DVD, mas cinco anos atrás não. - Gente, corre, corre, vem ver! Eles vieram todos, meio reclamando. Óbvio que um programa escolhido pela mãe não deveria ser grande coisa. Eu falava animada e correndo para não perder um minuto. - Gente, olha, era meu seriado predileto, eu tinha uns oito, nove anos, era o máximo, é uma família que voa pelo espaço, cada episódio eles param num planeta, tinha monstros horríveis, tem o robô, a mãe, o dr. Smith e o Will, olhalí... Até que eles foram bacanas. Os dois menores assistiram uns dez minutos e escapuliram. Fiquei eu e o Chico, com seus dez anos de idade. No primeiro comercial ele me olhou, abismado. - Mãe. - Ta gostando, filho? - Sério que você gostava desse programa? - Nossa. Eu adorava, filho. Adorava. - Mas mãe, você... acreditava nisso? - Como assim? - Acreditava ou não? - Sim, acreditava. Porque? - Mãe, você era muito burra. O tal módulo lunar tem cortina! Não dá para acreditar num seriado do espaço onde o módulo lunar tem cortina, mãe! E ele saiu rindo da sala, abanando a cabeça. Cortina? Fui verificar no seriado quando acabaram os anúncios. Ichi. Tinha mesmo.
  Desde pequena consumo essas pequenas bobagens: chichetes, balinhas, balas de goma, chocolatinhos e outras guloseimas. Porém, depois de uma certa idade entendi que tais alimentos não alimentam nada e percebi que engordam bastante. Parei de comprar e parei de comer, excetuando-se a bala Frutela de morango que gosto de comer quando vou ao cinema (essa eu não abro mão nunca, sou contra comida no cinema, mas Frutela é diferente, pois Frutela não é comida, Frutela é uma lenda). Tudo correu muito bem por uns vinte anos. Consegui controlar o impulso de comer bobageiras até o dia que parei de fumar, há dois anos. Aliás, quando a gente resolve parar de fumar, vende a alma ao diabo: é tão difícil e tão chato vencer aquelas primeiras semanas, que você tenta enganar seu cérebro e seu organismo com qualquer coisa. E, já que era assim, trocar o cigarro por qualquer outra coisa que entrasse pela minha boca, revolvi trocar pelas balinhas - pior seria trocar pela macarronada, pelo uísque ou pelas drogas. Dos males o menor. E dos males menores, ponderei também, para não ter que ir prum SPA em dois meses, era bom que fossem docinhas e balinhas pequenas (que, na minha cabeça, engordariam menos). Caramba, acho que eu gastei mais dinheiro com guloseimas do que com cigarro. Minha bolsa ficava pesada de tantos M&M´s (os do pacote marronzinho, só chocolate, que é o melhor), M&M´s minis (que vem num tubinho, meu predileto), Confetes (é a versão brasileira do M&M´s, um pouco mais doce) e milhares e milhares de caixinhas de Tic-tac (uma caloria por balinha, diz a irritante propaganda - eu comia mais de 300 por dia). Sério, meu estômago não deve ter entendido nada naquela época. Imagine que você é o estômago de alguém que come normalmente um café da manhã, um almoço e um jantar. De um dia para o outro, imagine que começa a cair dentro de você uma infinidade de sementes coloridas, doces e enjoativas de todas as cores: verdes, amarelas, azuis, marrons, uma a cada quinze segundos. Depois meia hora, lá vem uma chuva de sementes de horlelã e menta. Poim, poim, poim. Depois de mais quinze minutos, mais bolinhas coloridas, poim, poim, poim. Deve ter sido uma experiência terrível para ele. Um pesadelo estomacal. Porém consegui parar de fumar, olha que que maravilha: a troca da fumaça pelas bolinhas funcionou! O que não funcionou foi o meu truque de achar que as bolinhas pequeninhas, por serem pequeninhas, não iam me engordar. Adquiri uns 5 quilos, infelizmente, e, quando coloco maiô e descubro mais umas novas bolinhas de celulite, tenho certeza que aquilo é culpa dos M&M´s. Pensando bem, são até parecidos, as minhas sementes de MM´s e Tic-tac e as minhas celulites. Hum. Será que M&M´s que dá celulite?   Gente. Meus peitos estão diminuindo. Eu notei esse estranho fato outro dia. Eu era bem mais peituda quando era mocinha, eu tenho certeza disso. Será que é da idade? Das gravidezes dos filhos? Do monte de regime que eu invento de fazer? Ou algum será efeito colateral causado pelo uso excessivo de adoçante no café? Minha filha não me deu muita bola. - Pára de reclamar e coloca silicone logo, mãe. As mães das minhas amigas todas já colocaram, sabia? Todas? No dia seguinte veio uma mãe aqui buscar uma menina. Fui lá fuxicar se era verdade. Cumprimentei e dei uma olhadinha (discretÃssima) no decote. Uau. Que peitão enorme! Meu olho estatelou ali, mas juro, foi de susto! Acho que ela deve ter percebido e não gostou, pois não quis papo. Se despediu e foi embora rapidinho. Acho que não teria coragem não. Tenho uma certa âafliçãoâ de me imaginar com um peito falso, enorme e suntuoso como aquele. Mas hoje em dia todo mundo só pensa em colocar silicone. Silicone ali, silicone ali, como se o corpo da gente fosse uma massinha de modelar. Virou moda, as pessoas colocam silicone como colocam uma blusa, uma calça ou um sapato. Não quero ficar falando se acho certo ou errado, feio ou bonito, bacana ou não. Acho que a gente deve fazer tudo que tiver vontade para se sentir melhor. Depois, para pessoas que realmente precisam, colocar silicone é coisa muito útil. Mas à s vezes acho que usar silicone é tão esquisito quanto... usar dentadura, sabe? Uma vez tive uma empregada que usava dentadura. Tinha só 25 anos. - Nossa. Como foi que você perdeu todos os seus dentes? - eu perguntei à ela. - Eu não perdi â ela me disse â eu tirei. - Tirou? Ela me explicou, resolvidÃssima. - Tirei todos os meus dentes para colocar essa dentadura. A senhora veja como os dentes da dentadura são melhores, mais bonitos, mais branquinhos... Gente, não é a mesma coisa? Os peitos e bundas de silicone não são tão falsos como dentadura e peruca? Além disso, as pessoas acham o fim da picada usar roupas e acessórios de grifes falsificadas, mas não acham errado usar um... peito falso? Uma bunda falsificada, que nem é de carne humana? - Eu não coloco silicone nem morta â me disse uma amiga. - Não? Ela cochichou baixinho. - Não que eu ache feio. Mas é que silicone não apodrece, sabia? Não é biodegradável, essas coisas. - Hã? Eu não estava entendendo mais nada. - Vou explicar. Já imaginou se eu... pimba, morro? - Morre? Por causa do silicone? - Não, não, morro por qualquer motivo. Morro e sou enterrada. Pensa só. Daqui a uns anos meus parentes precisam me exumar, abrem o caixão, eu todinha já virei pó menos... a minha bunda?!? Que vergonha! Deusmelivre, imagina com que imagem que eu vou ficar para a posteridade! Concordo. Por mais que a gente queira ter uma bunda boa ou um peito bacana, acho que não agrada a ninguém ter uma bunda tão... eterna, não é? Enfim, mas, pelo sim, pelo não, resolvi consultar o meu marido, afinal ele também seria um dos interessados nos peitos grandões. Será que ele gostava da idéia? - Zé, eu estava pensando numa coisa. Ele estava lendo jornal, nem se mexeu do lugar. - Hã. Fala. - Olha só. Eu já tirei o aparelho, já acabei de arrumar os dentes. O que você acha se eu colocasse agora, assim, uns... peitões de silicone? Ele nem prestou atenção no que eu disse. Apenas bocejou e respondeu. - Uããã... colocar aonde, Lú? Isso que dá estar casada há tanto tempo, gente. - Ah, Zé, nada, deixa para lá. - eu me lembrei da minha amiga e completei a frase - depois eu morro...
  Olha, não é implicância minha, mas cada dia está mais complicado tirar férias. Alguns tipos de férias cansam mais que trabalho. Temos que andar de caiaque, caminhar 10 km por dia, ir à aula de tênis, fazer esteira, musculação, sauna, massagem shiatsu, ir ao curso de mergulho, pintar lenços de seda, além das atividades da noite, com os jantares temáticos, as gincanas e karaokê. No fim do dia é aquela exaustão. Isso é férias? à que hoje em dia descansar é coisa séria. Existem diversos tipos de lazer, e temos que definir qual o que mais se adequa ao nosso stress. Acabou aquela maravilha de aterrizar numa rede com um livro ou ficar a tarde toda vendo tv. Na-na-ni-na-não. Certos tipos de descanso, pouco saudáveis, já saÃram de moda. Por exemplo, ir apenas a praia é o fim da picada. Além de você voltar mais gordinha de tanto comer, vai voltar queimada de sol, duas coisas proibidÃssimas. Acho que é por isso que fica aquela andança nas praias no verão. Por causa da culpa. As pessoas se sentem mal de não fazer nada e ficam zanzando para lugar nenhum, daqui pra lá, de lá pra cá, batendo na pedra, voltando, batendo na outra pedra, voltando. Todo mundo muito sério e ocupado, alguns até com o celular na mão, para disfarçar. Sei lá. As pessoas estão ficando completamente malucas, eu acho. Depois tem os hotéis. Não entendo o que aconteceu, de repente inventaram que nos hotéis o descanso deve ser monitorado. Isso vale para todos, adultos e crianças, e assim surgiram uns rapazes e moças pagos para te animar, para te divertir, como se fosse impossÃvel uma pessoa se divertir sozinha. A gente pode recusar, fingir que não vê. Mas é uma sensação esquisita não participar daquele grupo animado, que por exemplo, sai para andar todas as manhãs depois do café. Os monitores vão te buscar na mesa. â Olá, não vai caminhar conosco? Olha que manhã linda! Dá vergonha de recusar, afinal, o moço é tão atencioso e todos os hóspedes (já de tênis novinhos e bonés) estão bem ali na frente, te esperando. Que remédio? Quando vou para esses hotéis, acabo fazendo coisas inacreditáveis por causa da minha vergonha de dizer ânãoâ. Já me vi numa piscina cheia de senhoras fazendo hidroginástica ao som de axé music, já fiz aulas de street dance, já pintei telas a óleo com paisagens dos Alpes, já andei horas com gente desconhecida, e até já fui de micro ônibus cantando para conhecer uma cachoeira. Um dia nem jantei, com medo da dança espanhola. O Zé não tem o mesmo problema que eu. Ele é de uma coragem admirável. â Não. Fala bem alto, e ainda por cima olhando no olho do monitor-musculoso-sorridente. â Não vou. Ninguém discute. Eles apenas saem de perto, sorrateiramente. Como ele faz aquilo? Gente, acho que estamos exagerando. Onde isso vai parar? Será que no futuro vamos precisar de monitores nana-nenê, que vão nos ajudar a dormir e descansar? E será que depois alguém ligará uns fios na nossa cabeça, para verificar se a nossa taxa de relaxamento está normal? à exagero meu, eu sei. Mas as férias estão ai, lá vou eu. Quem sabe em fevereiro dá para descansar um pouco?   Quase todas famÃlias fazem amigo secreto no natal. Claro, é muito mais simples comprar um único presente do que mais que vinte, é a maior economia de tempo, de dinheiro e de paciência. Na minha famÃlia bem que a gente tentou, ano passado, utilizar o método. Não deu certo. à que, apesar de todos os motivos citados acima, chegamos a conclusão que esse negócio de amigo secreto não tem a menor graça. Começou a ficar complicado na hora de definir quem era amigo secreto de quem. Como sortear os papeizinhos? Todo mundo mora longe um do outro, todo mundo trabalha fora o dia todo. As pessoas só se encontram mesmo no dia do natal, e olhe lá. Bom, a minha tia, a organizadora e lÃder, resolveu: ela tiraria os papeizinhos para todos, junto com a filha (para ninguém achar que ela engambelava), e leria os nomes por telefone, um por um. Assim, só ela, a lÃder, e a filha, a fiscal da lÃder, saberiam quem era o amigo (já não tão secreto) da pessoa. Ela começou a telefonar no começo de dezembro. E ai começou a não dar certo, pois ela não encontrava as pessoas. Uns trabalhando, outros viajando, outros no cinema, outros a empregada não deu o recado, essas coisas. O tempo foi passando e aquela lista enorme ainda na mão dela. Acho que ela perdeu a paciência, uma hora. E como estava chegando perto do dia da festa, resolveu mandar recado. â à Lurdes, fala para as suas filhas que o amigo secreto da Juliana é o tio César, o da Maria Alice é a Paula, do Ivan. Não encontro nenhuma das duas. O seu, lembra, é o Roberto, e o do teu marido, não confunde, é o Nicolas, o filho menor da Cristiana. Bom. Assim foi. No dia da festa não existia uma única pessoa que não sabia o amigo secreto do outro. As pessoas chegavam e já iam falando olá para os amigos secretos, assim, de cara. Digamos que, de amigo secreto, criamos uma nova brincadeira: o amigo público to-tal. A tia organizadora e lÃder reclamou, emburrada. â Ah gente! Mas era amigo secreto! Bom, a questão não foi só essa. As pessoas, acostumadas a dar mais de vinte presentes, acharam muito pouco dar um só, e ainda por cima para uma pessoa que não tinha nada a ver. Imagina se a minha tia avó achou alguma graça em dar um presente para o marido da sobrinha neta, que tinha acabado de casar e participava pela primeira vez da festa. E começou um falatório indignado antes da distribuição: â Gente, só uma coisa, hein. Para a mamãe eu comprei um outro presente. Afinal, mãe é mãe! â Ah, não! Tia Nair é a mais velha da famÃlia, merece um presente à parte. â Já a Nice é a dona da casa, dar uma festa dá um trabalhão, trouxe um presente para ela. â Bel, presentinho para você. Coisa de irmã. â Ah, judiação, trouxe umas coisinhas para meus bisnetinhos. Crianças não entende esse negócio de amigo secreto â Eu sei que o Ricardinho já tem quatorze. Mas para mim ele ainda é um menino! Ou seja, o negócio não ficou nem secreto e tampouco econômico. Como eu disse, aconteceu só naquele ano, e ninguém falou mais disso. Acho que foi um natal muito triste. Não sobrou papel no chão, não ganhamos aquele monte de baboseiras e saÃmos da festa com uma única sacolinha na mão. Nesse ano, se Deus quiser, voltaremos aos muitos presentes. Olha que delÃcia. Eu contei, vou comprar vinte e sete...
  Dia de natal, festa de famÃlia. Todas festas de natal de famÃlia são meio parecidas. Existe um ritual que todas as famÃlias respeitam. A ceia, o peru, os doces, a árvore, os presentes. E é sobre eles que eu queria falar. Os presentes de natal. Na minha famÃlia todos dão presentes uns aos outros. Todo ano é uma trabalheira para comprar aquele montão, mas, como dá vergonha receber e não ter nada para dar, todo mundo presenteia todo mundo. Chegamos na festa com aquele monte de sacolas. A árvore fica entulhada, o chão fica intransitável, as crianças, curiosas, mexendo nos pacotes. Conversamos. Ceiamos. Sobremesa. E enfim, chega a hora dos presentes. Aà que começa. A farta distribuição das... "lembrancinhas". à isso que eu não entendo. Juro. Esse negócio de lembrancinha, no natal a coisa fica insuportável. Elas se proliferam, e, quando você menos espera, está com dúzias de lembrancinhas nas mãos. O problema é que as tais âlembrancinhasâ nunca vem sozinhas. Junto delas vem sempre uma pessoa se desculpando e justificando o motivo de te dar uma coisa tão inútil. Não sei, mas parece que lembrancinha não é presente de verdade. â Olha, é só uma lembrancinha, hein? Coisa de nada, não repara! PeraÃ. Além de dar um presente que não é um presente, e sim uma reles "lembrancinha" de nada, quer dizer que o presenteado não deve nem reparar nela? Nem... olhar para o presente? Escuta, se o presente é mixuruca e se você nem deve gastar teu tempo passando os olhos por ali, porque a pessoa te deu? Eu tenho a maior vontade de responder: â Ah, é? à coisa de nada mês-mo? Jura? E, zummm, jogar o presente para trás, como se fosse lixo. â Fica tranqüilo. Nem reparei. Esse ritual acontece há anos, repetidamente, em todos as famÃlias, não só na minha. Acho que somos todos malucos. Pensa uma coisa. O teu parente faz uma lista de presentes, sai de casa, vai numa loja, enfrenta fila, trânsito, paga estacionamento, escolhe um presente, manda embrulhar, paga, leva até a festa, dá e te avisa: â Olha, é uma porcaria. Nem olha. E o pior é que temos que agradecer na escala oposta, exagerando, como se aquele presente fosse o máximo dos máximos. Haja adjetivo para inventar. â Uma mini caixa de costura de bolsa! Maravilha, adorei, é tão útil, tão gracinha, tão adequada, tão colorida, tão prática, tão artesanal, tão diferente, tão fofa, tão necessária, tão bonitinha... Acho única frase verdadeira nessas horas é a resposta que a gente dá quando ganha a tal da "lembrancinha". â Ah! Obrigada! Não precisava! Isso sim é perfeito. Não precisava mesmo. Não é?   O que aconteceu com a cor dos cabelos das mulheres? Não conheço nenhuma amiga minha que não pinte o cabelo. Todas, sem exceção alguma, usam algum tipo de tinta ou truque. Juro que já nem me lembro mais quem era naturalmente morena, loira ou ruiva na nossa juventude. O motivo de tanta transformação é simples: os cabelos brancos. Tudo culpa deles. Cabelos brancos são sempre associados com velhice, e, claro, ninguém quer ficar velha. Mas acontece uma coisa estranha: primeiro que não é só o cabelo que diz que você está ficando velha. Teu rosto, teu corpo e tua pele também falam a mesma coisa e que eu saiba, ninguém pinta o corpo de vermelho com a idade. Mas como todo mundo sempre te viu com a tua cor de cabelo natural, você não acha que quando você, de um dia para o outro, vira ruiva, as pessoas não vão perceber que é justamente porque você fez quarenta e teus cabelos estão ficando brancos? Na minha opinião, as pessoas vão achar estranho do mesmo jeito que achariam estranho você ter cabelos brancos. Não, é ainda pior, pois os cabelos brancos vem aos poucos, devagarinho, dando tempo para a gente se acostumar, mas as tinturas ruivas, castanhas, loiras e pretas retintas chegam de sopetão. Damos o maior susto, logo de cara: nossa eu não tinha nem te reconhecido! Está diferente! Eu implico é com uma coisa: porque temos que usar cabelos de cores diferentes da cor do nosso? Melhor passar de uma cor de cabelo (a que você nasceu) para outra cor (branca), do que desfilar por ai feito um... arco Ãris. à que a minha irmã, no verão passado, apareceu um dia de cabelo novo. Pintado. Um tipo de castanho claro, uma cor até que bonita. O resultado final incluÃa uma escova e uma "chapinha", que deixou os fios sedosos e brilhantes. Até eu invejei aquilo - o meu cabelo me pareceu mixuruco, perto daquela massa esvoaçante e linda sobre a cabeça dela. Nossa. Um dia eu ia até querer imitar. E assim, lindona, ela foi para nossas férias na praia. Eu, ela e nossas famÃlias. Chegamos para ficar quinze dias. E eu acho que nunca vi uma coisa igual à aquela. Minha irmã foi totalmente metamorfoseada ao longo desse perÃodo. O cabelo dela, nos primeiros dois dias, estava mesmo bastante castanho claro. Ela passou cremes e protetores solares, como mandam a gente fazer, mas, mais ou menos no quarto dia ela já era uma mulher ruiva. Vermelhinha de tudo, tinindo ao sol, com a maior cara de estrangeira. Ninguém entendeu nada. Depois de uma semana, estava com tudo cor de laranja. Laranja, aquela cor mesmo, a cor da fruta, a cor da caixa do lápis de cor. Não dava para acreditar, ela parecia uma boneca de mentira, ou uma moça modernérrima, daquelas que vão a boates e tem um monte de piercings. Olha, acho que se alguém quisesse pintar os cabelos exatamente daquela cor não conseguiria nunca. Ela até colocou um lenço para os vizinhos não acharem que ela era uma bandida e estava diariamente se disfarçando para não ser reconhecida. Mas não parou por ai. A revolta dos cabelos dela contra aquela tintura foi muito mais além. Depois de mais uns dias, umas mechas ficaram completamente amarelas. Amarelo ovo, bem forte. E depois apareceram outras, num tom meio acinzentado, esquisito. Ela entrou em pânico. Total. Aquilo não terminava. - Só falta ficar tudo azul! Depois, verde limão! Socorro! Todo mundo disfarçava para ela não ficar chateada. Imagina. Ela estava linda. Aquilo era só um tipo diferente de âloiroâ. Não era nada, nem dava para notar... Olha o perigo que é pintar o cabelo. No final dos quinze dias, ela conseguiu: estava loira clara, com os cabelos quase brancos mesmo (graças à Deus, pelo menos não ficaram azuis), mas com a textura de uma... vassoura de piaçava. Foi quando eu arrisquei, delicadamente: - Escuta, Ãngela, mas por que você foi pintar? Você tem tanto cabelo branco assim? Ainda está tão longe dos quarenta! - à que apareceram só uns fiozinhos. Mas tão feios, brancos... Feio? Que podia ser mais feio que aquele cabelo pintado e espirrado para todos os lados? Olha, não adianta tentarem me convencer. Não é melhor ter cabelo pintado do que ter cabelo branco. Nosso único consolo é que, graçasaDeus, ao menos é só cabelo que muda de cor com a idade. Imagina se os dentes da gente resolvessem ficar... pretos?   Afinal, quantos beijos a gente tem que dar? Sinceramente, isso para mim é um mistério. Cumprimentar os outros me deixa tensa, é uma movimentação meio enigmática, até perigosa. A gente nunca sabe quem está do lado de lá da hora do âoiâ, isso cria sempre um ridÃculo balé hesitante. Dizem que os cariocas cumprimentam com dois beijos, paulistas com um só. Se o cumprimentado for uma mulher, dê beijinhos no rosto, se for homem, estenda a mão. Ah, se fosse fácil assim... hoje em dia, poucos homens dão a mão. E eu mesma, paulista, nunca gostei de cumprimentar com um beijo só. Sempre acho que preciso dar dois, para equilibrar. Existem aqueles que não encostam a bochecha deles na sua, uns outros nem estalam o beijo. Teve uma época, nos anos setenta e oitenta, que dávamos livremente beijinhos na boca uns dos outros. Muita gente adotou o método e usa até hoje. Confesso, nunca me acostumei a essa modernice de compartilhar a saliva alheia. Bem, fui na festa de uns amigos. Cheguei, a sala lotada. Alguns eram conhecidos, outros nem tanto. Respirei fundo. Resolvi partir de um ponto lateral para iniciar o ritual. â Alô, tudo bom? Beijo. Beijo. Deu certinho com a primeira conhecida. Ao lado dela um fulano que nunca vi. Ela não fez menção de me apresentar. Fui beijar, mas ele se encolheu e me estendeu a mão. Fiquei com aquela ridÃcula boca de beijo, que parece boca-de-chupar-ovo. Ichi. Gafe número um. Ao lado dele, um outro homem, esse totalmente desconhecido. Eu ignorava? Mão? Beijo? Não podia errar duas vezes. Estendi a mão, mas ele veio com o rosto, e a minha mão ficou ali, pendurada. Beijo e bei... o segundo beijo não veio não. Fiquei parada no lugar, com aquele pescoço de gansa. Gafe número dois, e olha só. E eu tinha acabado de entrar... Depois apareceu uma amiga antiga, que deu um pulo quando me viu. Me abraçou furiosamente, e fiquei sufocada no meio de um bolo de cabelos encaracolados. Além disso, recebi um beijo estridente no ouvido, que me fez ficar surda e zumbindo. Olha, abraços são outro problema. Algumas pessoas abraçam e demoram um pouco além do normal para soltar a gente. O que a gente faz? Empurra? Nunca sei. Olhei para o lado oposto. Lá estava um antigo professor, um senhor bem mais velho. Quando me viu, abriu os braços, exageradamente. Hã? Era comigo? Eu teria que abraçar o professor? Mas eu nunca tinha encostado nele na vida, aquilo não era inadequado? Bom, quando ele me envolveu, entendi tudo. O que algumas doses de uÃsque podem fazer... o que ele precisava era de apoio. EquilÃbrio. Entendem? Ele me apresentou efusivamente um rapaz e passou a nos abraçar juntos, um de cada lado. O moço foi me dar um beijo, mas sabe aquele tipo de atrapalhação quando a gente não sabe direito de que lado começa? Acabamos dando um beijo na boca, o que foi bastante constrangedor. Ficou até uma babinha dele na minha boca, mas como o professor estava ainda apoiado em mim e o moço permanecia na minha frente, não pude limpar. Gafe número... ah, sei lá. Em seguida, a festa praticamente acabou. Chegou outro amigo que tem um hábito arrasador. Ele te cumprimenta e segura firme no braço. Ai começa a falar e não te larga mais. Sabe como é? A festa inteira e eu ali, acorrentada à ele. Paciência. Nesse dia eu resolvi. Chega. Afinal, eu era uma mulher ou um caroço de manga? Nunca mais hesitaria. Daria dois beijos em todo mundo, quisessem ou não. E beijo estalado, de boca na bochecha e ponto final. "Serei uma mulher de dois beijos, disse para mim mesma, decididÃssima". Toda animada, encontrei uma prima. Ela me deu um safanão. â Ai, estou gripadÃssima, olha o vÃrus! Beijar então, um perigo. Fica longe! Ei. Não disse que era perigoso?
***  O Chico, meu filho mais velho, quando tinha uns... onze anos, me perguntou, serÃssimo: - à mãe. O que são âescrúpulosâ? Quando vou começar a responder, o João, que na época tinha seis, se adiantou: - Você não sabe, Kiko? Todo mundo olha para ele. Ele continua. - Eu tenho alguns, mas a Luciana tem muito mais do que eu. Um montão de escrúpulos. - Como assim, ô Joãozinho - eu indaguei - Você tem um monte de... escrúpulos? - Tenho sim - ele disse, balançando a cabeça afirmativamente - Aqui, olha. Nesse joelho. E ele calmamente exibe umas casquinhas de ferida, já meio secas. - Olha aqui. Escrúpulos. A Luciana tem muito mais que eu porque ela caiu da bicicleta fazendo acrobacia. Vocês não sabe, Kiko? Escrúpulo é isso aqui, olha. Passa a mão... Esse texto é um capÃtulo de um livro que eu escrevi há muito tempo. E é sobre nós, mulheres. ... Como você disse, somos seres que andam no banco do passageiro. Ainda não dirigimos os carros, mas já percebemos que podemos dirigir. E esse é o problema. Olha, andar no banco do passageiro é mais ou menos assim. Você no inÃcio não sabe como controlar um carro. Sabe, entretanto, que ele é perigoso, mas necessário para te conduzir pela vida afora, e que você vai ter que enfrentá-lo um dia ou outro. Bom, um dia tem aulas e aprende. Dá uma vontade enorme de continuar. Dá um certo medo, você quer, mas a vida das mulheres tem um monte de regras. à estranho falar isso hoje, mas é assim. Porque também a natureza manda. Eu dirigi até o último dia da gravidez. Até de tardinha, indo aqui e ali, e a noite fui para o hospital. Mas um dia passei a direção. Não dava para se concentrar fora do mundo, só dentro da nossa barriga. E nessa hora você percebe que é bom ter motorista. Os perigos, os carros na contramão ficam mais distantes, a vista lateral é bacana. Você pode ver o pôr do sol. Você pode trocar a música. Pode dormir para sempre. Pode esquecer de colocar o combustÃvel. à isso. Você esquece que sabe dirigir. Simplesmente esquece. Enquanto você esquece, o carro vai andando, andando. Você arrumando as malas, trocando as músicas, você olhando o banco de trás, assim, por anos e anos e você bem feliz no teu banco de passageiro. Feliz, como somente é feliz quem não sabe de nada. Mas um dia, ah, esse maldito dia, você quer ir para outro caminho. Quer se perder um pouco, está cansada daquela estrada reta, percebe que o motorista corre demais. Percebe coisas que antes não percebia. E pela primeira vez você fala: âEi, cuidado!â. à nessa primeira vez que acontece. Você não vê a paisagem lateral, pois olha para frente. Vê o tamanho da estrada, vê o câmbio, o acelerador, o breque, o painel. Você começa a observar calmamente cada parte do carro. Começa a ter vontade de guiar, não porque ele dirija mal, mas somente porque você se lembra que sabia fazer aquilo. Guiar teu carro. E porque não faz? Porque? Nada pode ser igual dali para diante. A estrada passa a ser sua também, a direção é sua, mas nada está na tua mão. Está ali do lado, a seu alcance, mas você não pode guiar. E então, minha cara, então você olha para o motorista. Olha para ele como se nunca o tivesse visto, o motorista do teu carro. Você o vê de lado, dirigindo, sempre atento à sua vida, preocupado com tua existência, tua sobrevivência, dos teus filhos. Ele está lá e você o olha de lado. Como será ele de frente? Você não pode olhá-lo de frente, senão ele não vê a estrada, vocês podem bater o carro. E você se desespera com isso, como fazer? Antes você não tinha percebido nada disso, antes ele era só o motorista, mas agora você percebe e quer olhá-lo inteiro. O carro não pode parar. Ser uma copilota em crise é complicado, atrapalha. Você fala demais, começa a atrapalhar tudo. Ele começa a ficar irritado. Não pode tirar os olhos da estrada, e você fica pedindo para olhá-lo. Só isso, olhá-lo. Ele se irrita com você. Sempre foi assim, que coisa, pára de querer mudar. Pára, ele fala. Pára. Isso está ficando complicado. Além de dar palpite na velocidade, você fica falando ao invés de trocar a música. Mas qual música? Olha só, você nem se lembra que tinha que colocar música. Você esqueceu da música! E tudo começa a ficar sem tom. A estrada está estranha, parece de noite, melhor acender os faróis, deixa eu olhar o motorista, afinal onde arrumei esse cara? E você nem sabe por onde começar, se deve pegar a direção, se deve andar sem motorista, se deve colocar uma música e esquecer tudo. E esse motorista falando, será que antes ele não falava? E esse carro velho, como antes você não reparava que ele carrega as marcas de tantos anos rodados? E essa estrada, lá fora, vai anoitecendo e nunca o céu esteve tão lindo. Mas você não tem tempo de ver o céu. Tem que se preocupar com o carro, motorista, estrada, mapa, essas coisas. O que aconteceu com a sua vida? E se não bastasse tudo isso, se não bastasse, você começa a reparar nos outros carros ao redor. Em todos que passam. Com mulheres dirigindo também. Com outros motoristas. E todos te olham e você os olha. Meu Deus, onde será o primeiro posto? Onde será um acostamento seguro para parar? Preciso urgentemente chorar um pouco, pare logo ali, por favor, motorista, pare esse carro logo, eu nem ouço mais a nossa música. Pare que eu quero olhar os outros carros passarem e preciso ver se eles estão felizes. Pare que eu quero voltar. Como não dá? Como não pode? E afinal, afinal das contas, quem é você, sr. motorista? Quem é você? ... *
âO povo pare os gênios, e só. Depois de os parir, volta a babar na gravata.â  Fui convidada para uma festa de aniversário. Resolvi aproveitar a oportunidade e comprar uma roupa nova para a ocasião. Um vestido. Em primeiro lugar, preciso explicar: resolvi que ia usar um "vestido". Nos últimos tempos me virei com diversas combinações de e calça-e-blusa e saia-e-blusa e não agüentava mais. Um vestido é uma roupa completamente diferente. Um vestido é uma roupa in-te-i-ra, entende? Um vestido é muito mais que um simples vestido. à uma decisão. Uma conclusão. Um verdadeiro ponto final. Só que comprar um é complicadÃssimo. Um vestido precisa ter um porquê, uma explicação. Ninguém compra um vestido estampado com enormes flores e sai por ai, igual a um jardim ambulante, assim, sem mais nem menos. Depois a cor. Azul? Verde água? Vermelho? Escolher uma cor é difÃcil demais, pois a cor da roupa depende do teu estado de espÃrito. Na verdade, a cor depende da manhã, da hora que você acorda. E isso que é confuso. Como saber a cor de um dia antes dele acontecer? Uma outra coisa que atrapalha a compra de um vestido, na minha opinião, é a tal da âmodaâ. Esse negócio de moda confunde muito a gente. Eu sempre achei que roupa a gente deve escolher sozinha, igual comida. Comida a gente come o que quer na hora que quer, não é? E que eu saiba, os cozinheiros não resolvem, de seis em seis meses, o que se vai comer na próxima estação. Além disso, os estilistas criam roupas que, na maioria das vezes, não dão certo para a gente. Nós, pessoas comuns e normais, não temos cabeça (ou corpo?) para tanto design e invencionice. Comigo acontece ainda uma outra coisa, vou confessar aqui. à o problema da âcoleção passadaâ. Eu sofro do âmal da coleção passadaâ : basta entrar numa loja, percorrer as araras e escolher uma roupa, que a vendedora inevitavelmente declara: âah, as peças dessa arara são da coleção passada... não tem mais numeração nenhumaâ. E assim eu sou olhada de cima a baixo com indignação. âComo que essa fora-de-moda não sabe que essa roupa não se usa mais?â Bem, mas mesmo sabendo disso tudo eu queria comprar um vestido novo. Respirei fundo e fui ao shopping. Na primeira loja que entrei pareceu uma vendedora sorridente: âexperimenta esse, moça. Está usando muitoâ. Hã? Olhei o modelo que ela colocou na minha mão e olhei lá para fora, no mall do shopping. As pessoas vestiam calça jeans, camisetas. Ninguém usava aquela estranha vestimenta, que mais parecia uma roupa de mergulho, cheia de fivela e zÃper. âà que agora não se faz mais roupa só com tecidoâ, ela explicou. âTemos roupas de diversos materiaisâ. Reparei, era verdade. Chapinhas de metal, pedaços de plástico, elásticos deformados. Caà fora dali, esse negócio de usar âmaterialâ pode ser perigoso. E se eles dilatassem de formas diferentes? Entrei em outra loja. Encontrei um modelo bonito, mas cheio de barbantes. Bem, aquilo não era uma roupa, era uma cilada. Entrei em pânico no provador quando descobri, depois de diversas tentativas, que estava presa no meio dos fios de linha. O vestido era como uma teia de aranha. E eu, óbvio, mais uma mosca-morta. Sussurrei baixinho: âalguém ajuda... socorro!â. A mocinha apareceu, sorrindo, já devia estar acostumada. Ainda fez piadinha. âEstá presa? Mas ficou lindo, aproveita e já fica com ele. Quando é a festa mesmo?â Zanzei aqui e ali, em diversas lojas. Achei um que ficou bom em mim. Chamei meu filho mais velho no provador. â E aÃ? Que acha? Ele ficou boquiaberto com minha escolha. â Amarelo ovo, mãe? Tá maluca? Bom, uma hora chegou. Eu não agüentava mais. Foi ai que eu vi aquele vestidinho preto e branco. Um vestido simples. Do lado de dentro, branco, do lado de fora, preto. Ou vice versa, e essa é que era a melhor parte. Podia-se usar dos dois lados. Comprei. Tudo depende do dia de amanhã.
 Não uso sutiã Não preciso de nada Que me sustente.
Paula Taitelbaum
 No meio da tarde me ligou um amigo, o Álvaro. Ele ia fazer uma exposição e queria colocar o nosso endereço na mala direta da galeria para mandar o convite. Lúcia, fala para mim o endereço e o nome inteiro de vocês. Hum. O meu nome ou o nome do Zé? Os dois, ué. O teu e o dele. Ei, não dá para ser só o meu, Álvaro? Coloca assim: para a Lúcia Carvalho e marido. Por que? Eu não vou dar o nome inteiro do Zé para você. De jeito nenhum. Hã? Álvaro. Se eu falar o nome dele, vai chegar aqui em casa um convite assim: Para o sr. José e sra.. E o que é tem isso? Como o que é tem isso? Ora! Eu não me chamo sra.! Mas é só um convite, Lúcia. Álvaro, não agüento mais ser Sirá. Tudo quanto é convite que chega aqui em casa é assim: Para o sr. José e... sra. Essa dai, a tal da Sirá, sou eu. É horrível, Sirá não é nem ao menos um nome só meu. É meu e de mais de um milhão de mulheres do mundo. Todas Sirás. De uma hora para outra, deixamos de ser qualquer coisa. Somos apenas as pessoas do lado. As acompanhantes. As Sirás. Que exagero, Lúcia... Pode ser, mas eu enchi. Se chegar aqui algum convite para o Zé e para a Sirá dele, eu rasgo e não vou. Só vou se tiver meu nome no envelope. Direitinho. Nossa. Agora estou com medo de dar alguma coisa errada... bem, melhor eu mandar dois convites... Manda. Manda dois, três, trinta, quantos você quiser. Eu só vou se eu for convidada. Eu vou, a Sirá fica. Convidar uma Sirá para uma festa é o mesmo que convidar uma sombra. Sabe, ela fica só de lado, não participa... Hã? Não! Não posso deixar isso assim, Álvaro. Preciso montar uma campanha para salvá-las. As Sirás do mundo tem que se unir para se defender das malas diretas, que ignoram seus nomes! Pensa bem, Álvaro. A gente nasce, cresce, estuda, trabalha... tudo certinho, o nome da gente ali, firme. Um dia a gente se casa e vira uma... uma... reles... Sirá? Onde que já se viu? E Sirá nem se escreve com maiúscula: sra.... uma pobre mulher, mínima, que ainda vem com um ponto final no fim... Vê? É o fim do túnel para uma mulher moderna. Campanha? SOS SIRÁS, vai se chamar a campanha. Tudo com maiúscula. Letras garrafais. Lúcia, que confusão... eu só queria que você fosse na exposição. Ah, é, desculpa... Deixa, melhor te convidar por telefone. Anota ai o dia e o lugar, e esse convite é para você, Lú-ci-a. Está bom assim? Você vai? Vou, Álvaro, vou. Bom... e aproveita e convida a Sirá, se ela estiver por perto.
***  Quem gosta de abismos, tem que ter asas.
(putz, perdoa, mas não sei quem escreveu essa linda frase...)  Conversava com uma amiga minha sobre um trabalho, quando ela me interrompeu. - Que signo você é? - Como? - O signo. Seu. - Hã? É... escorpião. - Ah, então é isso. Está explicado. Ela fez uma cara de quem entendeu tudo. Tive a impressão que seria desnecessário continuar a conversa, como se aquela reles palavra, escorpião, o bichinho, ele mesmo, fosse a síntese de todo o meu comportamento e a razão de eu ter conseguido aquele trabalho. Juro que cada vez que isso acontece comigo me dá a maior vergonha. Vai ver que é do signo mesmo, mas eu não entendendo patavina de horóscopo. E quando alguém, geralmente mulher, aborda esse assunto eu fico com a maior cara de boba. Na verdade eu não vou além da primeira livre associação da palavra, o que é absolutamente imperdoável para quem entende de horóscopo. É mais ou menos o seguinte: concluo, por exemplo, que as pessoas de balança são equilibradas, que as de leão são mais bravas e que as de gêmeos tem dupla personalidade. E não concluo nada sobre pessoas de alguns signos, como sagitário e áries, porque sequer tenho essa primeira associação. Ou seja, uma pessoa assim é um verdadeiro desastre astrológico. Algumas mulheres julgam que, se você não sabe nada de horóscopos, você não sabe nem quem é. Uma pessoa que, além disso, nunca fez mapa astral e não tem idéia do ascendente, corre o risco de ser eliminada do mundo feminino. Eu morro de medo, um dia alguém vai descobrir que eu sou uma fraude, e terei que pagar uma indenização à ... à ... Ei. Será que existe algum movimento pró - astros, do tipo salvem as baleias? Tenho que tomar muito cuidado. Bom, outro dia foi aniversário de uma amiga. Na festa ela reuniria todas as melhores amigas que teve na vida. Fiquei muito emocionada de ter sido escolhida, resolvi levar um ótimo presente. Rodei horas numa livraria, até que achei um livro maravilhoso, enorme e com uma impressão deslumbrante. Sobre astrologia. Olha. Não sei o que me deu de comprar aquele livro. Não combina comigo dar de presente livro de horóscopo. Eu mal leio o meu no jornal, às vezes até distraio e leio o do signo errado, e o pior é que comigo funciona do mesmo jeito, mesmo sendo o de outra pessoa. Mas conjeturei: eu era uma das melhores amigas dela, fui até selecionada, e sabia que ela adorava esse assunto. Mandei embrulhar. Cheguei na festa toda animada com o meu presentão. Estavam todas elas lá, as outras melhores amigas, bebendo champanhe. Ela abriu o pacote, e imediatamente ficou completamente histérica. - Aaa! Legal! Incrível! Bárbaro! Obrigada! Uau! Lindo! Gente do céu. Durante mais de uma hora fiquei ouvindo exclamações completamente desesperadas a respeito da maravilha daquele presente. Acho que o tal livro devia ser muito, muito bom, sabe? Foi um sucesso indecifrável, indescritível, inigualável. Depois o livro foi apalpado, agarrado e acariciado por todas as mulheres daquela sala, como se fosse uma jóia preciosa, como se a solução de todos os problemas femininos estivesse ali, naquele livro mágico. E, desde a hora que eu cheguei (boquiaberta), até a hora que eu fui embora (bocejando), não existiu outro assunto naquela festa: ho-rós-co-po. Para elas, a festa foi um sucesso, animadíssima e alegríssima. Só eu, que por culpa minha mesmo, passei a noite completamente muda e deslocada, com a maior cara de tacho, sem entender e sem saber dar nenhuma opinião. Foi uma desenturmação e uma sem-gracice total. E, pior. Eu não podia sequer falar que eu não entendia de horóscopo, pois, afinal, dando um livro daqueles, eu deveria ser a maior PHD no assunto. Gente. Porque mulher gosta tanto de astrologia? Não sei, mas é assim mesmo. E a única coisa que eu tenho a dizer é que eu sou uma mulher de escorpião. Aquele, o bichinho, ele mesmo. E um dia, ah, um dia eu me vingo delas. Exatamente como ele faria.
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 "Às vezes sinto-me tão desesperado que me sento a escrever como quem chora."
Eugênio de Andrade, poeta português.
 É muito bom fazer ginástica. Todos os dias eu tento acreditar nessa frase. Mas quando estou no meio da aula de ginástica e me olho naqueles espelhos, tenho vontade de morrer: Não tem nada mais chato. Outro dia ouvi do meu filho o seguinte comentário: - Mãe, você deve ser muito ruim de ginástica. - Ruim? Eu? Por quê? - Porque você nunca passa. Repete todo o ano. - Ah. Ginástica não tem ano, filho. A gente vai e faz. Não precisa passar. - Não? Que coisa chata. Não vejo graça nenhuma. Nem eu, meu filho. Mas dizem que faz bem para a saúde, que todo o corpo funciona melhor. É que ginástica não é como um jogo, que a gente compete, animada. Ginástica não é como um campeonato, onde você pode receber medalhas. Ginástica também não é igual a vídeo game, onde você passa de fase. Não tem time, nem torcida, nem vencedor. Na verdade é uma tristeza, pois ginástica não é igual a nada. É só um lugar aonde você vai, respira fundo e, sem motivo nenhum, repete setecentas vezes os mesmos movimentos: pula, senta, levanta, requebra, mexe, estica, encolhe, agacha. Olha. Acho um desperdício gastar essa energia toda à toa. Logo agora quando se fala tanto em economia de energia e racionamento. Devíamos aproveitar para alguma coisa, tanta gente faz ginástica nesse mundo... poderíamos até bolar uma coisa maior, um grande plano nacional. Usinas de energia de academia. Estou até imaginando a conversa. Como é o aquecimento da sua casa? Gás, solar? Não, é energia humana. Temos uma academia pequena em casa. Hum. Olha a idéia, gente. Antigamente a gente usava só o nosso corpo para fazer ginástica. Mas acho que as pessoas começaram a ficar entediadas, pois surgiram essas academias equipadíssimas, os aparelhos de musculação, as roupas, os tênis. Ginástica com pesos, barras, steps, elásticos, bicicletas, bolsinhas de areia, computadores e medidores de pulsação. Nos transformamos nuns astronautas, com roupas complicadas, acessórios pendurados e monitorados até a alma. É tanta coisa que fica até difícil fazer ginástica, com aquele monte de coisa em cima. Li numa revista que agora existem ginásticas que simulam movimentos de limpeza doméstica: varrer o chão, limpar janelas, esfregar o piso, lavar roupa. Pensa bem: isso não é uma piada? As mulheres de hoje em dia não lavam mais roupa, não limpam janelas e não varrem o chão da casa delas. Afinal, estudaram, se formaram e trabalham o dia todo. Mas quando acaba o trabalho, vão para a academia, entram numa sala limpíssima e fingem que empunham uma vassoura. Escuta, não seria melhor fazer isso na casa da gente e economizar o trabalho da empregada? Sei lá se funciona, mas, com certeza, depois de uns meses de aula provavelmente seremos ótimas faxineiras. Ou, de tanto girar vassoura sairemos voando, como umas bruxas. Malhadíssimas, claro. Eu, pessoalmente, não gosto muito desse termo: malhar. Malhar, além de significar fazer ginástica vigorosa visando a musculação ou emagrecimento, também significa bater com malho, adulterar droga, ou até soltar a voz (o sapo, a rã). Nada que lembre saúde, corpo bacana. E olha: até sapo e rã malham? Iii... será que será esse nosso destino? Tanto esforço para ter o corpo da... dona sapa? Agora quase todo mundo tem um personal trainer. Um personal é um professor de ginástica só seu, exclusivo. Um amigo me disse que confunde o termo personal trainer com serial killer. Pensando bem, acho que são meio parecidos mesmo. Os dois podem fazer a gente ter um treco, os dois dão um pouco de medo. Bom, um personal é um cara que você contrata para ficar praticamente te empurrando para fazer exercício. Como se você fosse uma pessoa sem iniciativa alguma, um zero total, e, sem ele, você não fosse capaz de nada. Olha. Sei que estou falando meio mal, mas não liga muito para o que eu falo. É um pouco de ciumeira confessa minha. Eu bem que precisava de um empurrão de um personal bacanão para sair dessa cadeira mais vezes. Pelo sim, pelo não, vamos lá. Seja de vassoura na mão, roupa de astronauta, malhando feito a dona sapa ou fugindo do serial killer, melhor acreditar nessa tal frase. E, que remédio? Fazer a tal da ginástica...
***       | Sacadas | Oct 26, '04 8:53 AM for everyone |
Ligou meu marceneiro. No meio da conversa, sei lá porquê, ele me fala o seguinte: - Olha lúcia, vou te falar uma coisa. Quando eu vou num terraço de um prédio alto, nossa, eu... - Você tem vertigem? - perguntei. - Não é isso. Eu olho a bordinha, sabe, a bordinha do terraço? O limite? Eu olho ali e penso: daqui para cá é a vida. E daqui para lá é a morte. A morte, lúcia. - Nossa, credo. - Ah. Não sei, lúcia, mas acho importante a gente lembrar que a gente tá muito perto dum enorme buracão. E que a gente fica vivo porque quer, só por isso. E assim eu entendi o resto da minha tarde de trabalho, depois dessa filosofia marceneira. E me pus a projetar belos corrimãos para poder apreciar a vista.
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